Quem mora em Telêmaco Borba cresceu à sombra da Klabin. A chaminé, a fábrica e as florestas plantadas fazem parte da paisagem e da vida de milhares de famílias da região. Mesmo assim, poucos moradores sabem por que o mercado diz que esse modelo de negócio não pode ser copiado.
Não existe um motivo único. São cinco fatos que, somados, formaram algo que dificilmente vai se repetir.
1. Uma fazenda quase do tamanho da capital paulista
A Fazenda Monte Alegre foi adquirida em 1947 com cerca de 126 mil hectares. Para comparar, a cidade de São Paulo tem aproximadamente 152 mil hectares.
A fazenda tinha mata, invernadas, rios, arroios, cachoeiras, argila e pedra para construção. Ou seja, tudo o que uma fábrica de papel precisava para nascer estava dentro da mesma propriedade.
📌 Curiosidade: o primeiro mapa da fazenda foi feito por fotografia aérea. Os aviões sobrevoavam a área em altura e velocidade constantes, e equipes em campo, com teodolito, facão e piquete, conferiam tudo no chão. Riachos sem nome eram batizados na hora. Foi assim que surgiram lugares como o “Canivete Perdido”, que ganhou esse nome porque alguém perdeu um canivete por lá.
📌 Três dias a cavalo: na primeira visita de Samuel Klabin não havia estrada. Ele levou três dias a cavalo até o Salto Mauá, no Rio Tibagi, onde depois nasceria a primeira grande usina hidrelétrica da região.
2. Um projeto nascido na Era Vargas
Durante o Estado Novo, o Brasil queria deixar de depender de produtos importados. O aço veio com Volta Redonda, os motores com a Fábrica Nacional de Motores, e o papel estava na mesma lista de prioridades.
A negociação da Fazenda Monte Alegre saiu de um triângulo formado por Getúlio Vargas, pelo interventor do Paraná Manoel Ribas e por Wolf Klabin. Esse alinhamento político, em que o próprio Estado impulsionava a industrialização, é um contexto que não se repete hoje.
📌 Você sabia? Em 1947, toda essa área pertencia a Tibagi. Com o tempo, as terras da fazenda passaram a fazer parte de municípios que hoje são Ortigueira, Imbaú, Curiúva e Ventania.
3. Mais de dez anos só gastando dinheiro
Entre a compra da fazenda e o primeiro papel saindo da máquina, passaram-se mais de dez anos. Nesse período, a empresa precisou construir praticamente uma cidade do zero:
- estradas e ramal ferroviário;
- mina de carvão;
- olaria, onde eram feitos até os tijolos da chaminé;
- barragens e usinas hidrelétrica e termelétrica;
- hospital, armazém, escolas e até cinema.
Era uma comunidade de quase 10 mil pessoas mantida sem nenhum retorno financeiro. Poucos investidores hoje aceitariam esperar tanto tempo para ver o primeiro resultado.
📌 O causo: durante a Segunda Guerra Mundial, um navio que trazia equipamentos para a fábrica foi bombardeado e afundou. Conta-se que um membro do grupo ouviu a notícia por uma rádio alemã e sofreu um infarto.
📌 Antes da hidrelétrica: a energia vinha dos locomóveis, caldeiras estacionárias a vapor. A chaminé que ainda resiste no meio do mato, na região da Lagoa, é de um deles. Ali funcionou uma das maiores serrarias do Paraná, e só a Vila da Lagoa chegou a ter cerca de 200 casas.
4. Gente de todo canto
A região era sertão, com muitos recursos naturais e pouca mão de obra. Por isso, vieram trabalhadores de Castro, Piraí, Minas Gerais e do Nordeste, com destaque para os paraibanos. Também chegaram estrangeiros de cerca de 30 etnias, muitos fugindo da guerra e com experiência em mecânica, fundição e reflorestamento.
Em 1949, o SENAI passou a dar aulas dentro da própria fábrica. A Klabin ficou conhecida como a “Universidade do Trabalho”, formando profissionais para o Brasil e para o mundo.
📌 O causo: um funcionário faltou ao serviço e depois explicou que tinha ouvido que, “se chovesse, não ia ter trabalho”. Na verdade, a chuva só atrasava a chegada de equipamentos pelas estradas ruins. Muita gente ainda não conhecia o ritmo de uma indústria.
📌 Montealegrense: quem nasceu na fazenda até os anos 1960 era chamado de montealegrense, fosse de origem polonesa, austríaca ou espanhola. Com o loteamento da “Cidade Nova”, nome original de Telêmaco Borba, surgiram os telemaco-borbenses. A história da Fazenda Monte Alegre é mais antiga que a do próprio município.
5. Da semente ao papel, tudo em casa
A Klabin controla a cadeia inteira de produção: pesquisa, escolha da semente, plantio, corte e fabricação. Esse modelo se chama verticalização. Ele dá segurança ao negócio porque a empresa não depende de fornecedores externos em nenhuma etapa.
📌 A ideia vem de longe: Maurício Freeman Klabin começou como empregado de uma papelaria em São Paulo. Depois comprou o negócio e montou uma fábrica de aparas, ou seja, de reciclagem de papel, para produzir ele mesmo o que vendia.
Uma história que não se repete
Uma área gigantesca e cheia de recursos, um projeto de país apoiado pelo governo, mais de uma década de investimento sem retorno, trabalhadores de dezenas de origens e o controle de toda a cadeia produtiva. Cada um desses fatores já seria difícil de reproduzir. Juntos, explicam por que a Klabin é vista como um caso único e por que a história de Telêmaco Borba está tão ligada à dela.


