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Imigração árabe: raízes de Telêmaco Borba

Em 1961, dois homens desembarcaram no porto de Santos sem saber falar português, sem conhecer ninguém e sem destino certo. Um deles se sentou no meio-fio, desesperado, até que um estranho passou, reconheceu os traços do seu povo e cumprimentou-o em árabe. Foi esse encontro casual que, por um caminho de recomendações e coincidências, acabou trazendo o pai de Mustafa — e, com ele, uma das comunidades mais influentes no comércio da então Monte Alegre — para o que hoje é Telêmaco Borba.

A trajetória da família

A família de Mustafa é originária da Palestina, de uma pequena localidade chamada Katana, a cerca de 13 quilômetros de Jerusalém. Seu pai, conhecido na cidade como seu Mamede, era o mais velho de 13 irmãos — o que, segundo a tradição, significava responsabilidade precoce por ajudar a criar os mais novos. Antes de emigrar, ele havia trabalhado quebrando pedra, servido no exército (aparentemente ainda sob influência britânica na região, à época do Mandato) e, no momento em que decidiu partir, atuava como servente numa escola primária local.

Foi justamente o diretor dessa escola, amigo pessoal de Mamede, quem viabilizou a viagem: tinha um irmão radicado no Brasil, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, dono de uma loja de roupas. A sugestão foi que Mamede e um primo fossem até lá, já que não tinham um destino definido — apenas o desejo de buscar “novos horizontes” para sustentar financeiramente a família que ficava para trás: esposa e quatro filhos, incluindo uma filha ainda bebê.

A chegada ao Brasil

A viagem durou 28 dias, com uma parada de quatro dias na Itália. Ao desembarcarem em Santos, o contato que deveria recebê-los simplesmente não apareceu — atraso, segundo o relato, provavelmente causado pelas más condições das estradas entre o Rio Grande do Sul e São Paulo naquela época. Os dois ficaram largados, sem saber o que fazer, até que um estranho os reconheceu como árabes pelas feições e os cumprimentou no idioma.

Esse desconhecido sugeriu que fossem para São Paulo, onde havia um hotel que concentrava a comunidade árabe recém-chegada. Foi lá que Mamede e o primo conheceram outros patrícios — alguns dos quais já trabalhavam na região de Monte Alegre (nome pelo qual a atual Telêmaco Borba era então conhecida, em referência a uma fazenda local) e contavam que “lá tem uma fábrica de papel, e o dinheiro tá rouco: é só querer trabalhar.” Outros sugeriam Brasília, recém-nomeada capital federal e em plena efervescência da construção civil, ou Apucarana, no norte do Paraná. A decisão, tomada entre eles mesmos, acabou recaindo sobre Monte Alegre — mesmo sem que ninguém, até hoje, saiba explicar com exatidão por que essa opção prevaleceu sobre a capital do país.

O papel na formação da cidade

Quando Mamede chegou a Cidade Nova, em 1961, a cidade ainda não tinha asfalto e o gado andava solto pelas ruas — a região sequer havia se emancipado como município (isso só aconteceria em 1963). A indústria de papel, no entanto, já vinha se consolidando desde a década anterior, com investimentos crescentes e demanda por mão de obra — o que atraía famílias inteiras: pai, filho e irmão costumavam trabalhar juntos na fábrica.

Sem recursos, Mamede começou como mascate: vendia de porta em porta espelhos, pentes, quadros para parede e, principalmente, peças de tecido — já que roupas prontas ainda não eram comuns e as donas de casa dependiam de vendedores ambulantes para se abastecer. A atividade era informal e arriscada: fiscais municipais confiscavam a mercadoria de quem trabalhava sem licença, o que obrigava os mascates a ficar atentos e, por vezes, se esconder.

Depois de cerca de um ano como mascate, Mamede conseguiu alugar um pequeno ponto comercial na então Avenida Apucarana — hoje Avenida Horácio Klabin. A escolha não foi por acaso: apesar de a Avenida Paraná ser mais larga e ter sido planejada para ser a principal via comercial da cidade, era ali, na Apucarana, que passava o fluxo de pessoas — perto de uma serraria e da rota que levava ao bonde. Foi esse fluxo, e não o planejamento urbano original, que consolidou a atual Avenida Horácio Klabin como o centro comercial da cidade — um exemplo de como o comércio, e não o projeto urbanístico, muitas vezes decide onde uma cidade realmente cresce.

Em 1964, Mamede comprou um imóvel conhecido como Casa Flórida de outro imigrante palestino que decidira voltar para a Palestina — a negociação foi baseada na confiança entre os dois, com pagamento parcelado ao longo do tempo. Segundo Mustafa, a comunidade árabe da região chegou a somar entre 30 e 50 famílias nas décadas de 1960 e 70 — um contingente que, segundo ele, superava até mesmo as colônias italiana e japonesa na cidade. A concentração de comércios árabes na avenida principal era tão marcante que a via ficou popularmente conhecida como “rua dos turcos”.

Fatos históricos valiosos

Por que “turco”? — Até a Primeira Guerra Mundial, praticamente toda a região hoje conhecida como Oriente Médio esteve sob domínio do Império Otomano. Por isso, os primeiros imigrantes da região — fossem eles palestinos, libaneses, sírios ou jordanianos — emigravam com passaporte turco, e o termo “turco” acabou generalizado no Brasil para designar qualquer pessoa vinda daquela região, mesmo após o fim do domínio otomano e a criação de países como Palestina, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque. Mustafa afirma não se ofender com o termo, atribuindo seu uso ao desconhecimento popular, não à má intenção.

A Guerra dos Seis Dias (1967) — Esse conflito entre Israel e países árabes vizinhos teve impacto direto na família de Mustafa: parte de seus parentes atravessou a fronteira da Palestina para a Jordânia. Foi nesse contexto que Mamede viajou de avião para buscar a esposa e os dois filhos mais novos (um menino de 14 anos e uma menina de 8), trazendo-os para o Brasil. Os dois filhos mais velhos ficaram para trás — um por estar estudando fora, e a filha mais velha por ter acabado de noivar.

A mesquita que quase existiu — Durante a gestão de um prefeito identificado no relato como Carlos Hugo, a prefeitura chegou a doar um terreno à Sociedade Beneficente Muçulmana de Telêmaco Borba para a construção de uma mesquita — hoje a área conhecida como “Área 1”. Por desatenção da comunidade, o prazo legal para cercar e iniciar a construção não foi cumprido, e o terreno reverteu ao município. Até hoje, segundo Mustafa, essa oportunidade não se repetiu.

O cemitério com orientação diferente — Quando o Jardim da Saudade foi criado no bairro Jardim Bandeirantes, a Sociedade Beneficente Muçulmana de Telêmaco Borba obteve um terreno específico para sepultamentos segundo o rito islâmico: corpos lavados, envoltos em três panos brancos (sem caixão nos países de origem, embora no Brasil o uso do caixão seja adaptado à legislação local), deitados sobre o lado direito com o rosto voltado para Meca — razão pela qual, até hoje, é possível notar que os túmulos dessa área do cemitério têm uma orientação visivelmente diferente dos demais.

Curiosidades

  • “Volto outra hora” não significa “outra hora”. Em uma das primeiras semanas de Mamede como mascate, uma moradora lhe ofereceu café e, ao final, disse “volte outra hora”. Sem entender a expressão coloquial brasileira, ele literalmente voltou horas depois, achando que aquele era o momento combinado — um mal-entendido que a família ainda lembra com carinho como símbolo do acolhimento (e da paciência) dos primeiros anos.
  • Um prato que se vira de cabeça para baixo. A maqlouba — cujo nome significa literalmente “virado” — é um prato típico palestino preparado em camadas (carne, vegetais fritos como berinjela, batata e couve-flor, e arroz) cozidas juntas numa panela e depois viradas inteiras sobre uma travessa na hora de servir.
  • Uma jovem brasileira que aprendeu árabe para ajudar a criar Mustafa. Teresa, funcionária da loja da família (a Casa Flórida) durante seis anos, aprendeu árabe porque a mãe de Mustafa não falava português — e acabou ajudando a criá-lo quando ele era bebê, antes de deixar o emprego para se casar.
  • Uma cidade grande demais para não ter mesquita — mas nunca teve uma. Apesar de ter reunido, segundo relatos, até 50 famílias árabes numa mesma região em determinado período, Telêmaco Borba nunca chegou a ter uma mesquita construída, mesmo após a doação de um terreno para esse fim.
  • A Jordânia é o principal produtor mundial de fosfato — um dado que Mustafa menciona por ter parentes vivendo lá até hoje, e que ganhou relevância recente com a crise de fornecimento agrícola provocada pela guerra na Ucrânia.

Legado

O legado dessa imigração está entranhado no próprio traçado comercial de Telêmaco Borba: a Avenida Horácio Klabin, ainda hoje o principal eixo de comércio da cidade, consolidou-se como tal em boa parte por causa da presença árabe que ali se instalou nos anos 1960 e 70. Nomes de lojas como Bazar Terra Santa, Casa Oriente, Casa São Jorge e tantas outras fizeram parte da memória afetiva de gerações de moradores — a ponto de o bazar ser lembrado, décadas depois, como “o shopping de Telêmaco” daquela época.

Mais do que isso, essa comunidade trouxe consigo tradições religiosas, culinárias e familiares que resistiram à distância e ao tempo — da maqlouba servida em casa aos costumes de sepultamento preservados até hoje no cemitério municipal, passando pela manutenção do árabe como língua falada dentro de casa por gerações, mesmo sem escolarização formal no idioma.

Final

A história de Telêmaco Borba não caberia inteira sem a “rua dos turcos” — um apelido popular que, por trás de uma imprecisão histórica, carrega décadas de trabalho, fé e adaptação de famílias que atravessaram meio mundo com uma mala pequena e a esperança de voltar em pouco tempo. A maioria nunca voltou — mas ajudou a construir, esquina por esquina, o comércio que até hoje sustenta o coração da cidade.

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