Herói dos índios ou perseguidor? A vida controversa do homem que batizou nossa cidade
A história do fundador
Telêmaco nasceu em 15 de setembro de 1840, na região de Borda do Campo, nos arredores de Curitiba — área que hoje corresponde a São José dos Pinhais. Foi batizado poucos meses depois, em 19 de dezembro de 1840, na Matriz de Nossa Senhora da Luz, em Curitiba, pelo reverendo coadjutor Isaías Ribeiro da Silva. Ou seja: pela divisão administrativa da época, Telêmaco era, tecnicamente, curitibano — hoje, seria classificado como são-joseense.
Ele viveu num tempo em que as fronteiras do saber ainda não estavam delimitadas como ciências separadas. Não existia curso de antropologia, nem de etnografia, nem de geografia especializada. Os homens “de múltiplas ciências” — como o próprio Telêmaco, ou contemporâneos como o botânico e historiador Romário Martins e o pintor-biólogo Alfredo Andersen — aprendiam fazendo, aplicando o método científico a qualquer área que a necessidade exigisse. Assim, Telêmaco foi, ao mesmo tempo, sertanista, geógrafo, etnógrafo e até paleontólogo, sem nunca ter cursado uma faculdade específica para nenhuma dessas funções.
A chegada à região
Ele decidiu deixar o litoral paranaense — onde o comércio da erva-mate já estava consolidado — em busca de algo diferente, justamente no período em que o Oeste do Paraná vivia a delimitação de fronteiras e a expansão territorial. O destino foi a região da Colônia Militar do Jataí, responsável por defender a fronteira do estado, e o aldeamento de São Pedro de Alcântara.
Em 1863, ele passou a atuar como funcionário público no aldeamento, exercendo a função de sertanista: adentrar as matas, atrair grupos indígenas com brindes e trazê-los para os aldeamentos, na tentativa de integrá-los à sociedade nacional — política oficial do Império à época. Ficou nessa função até 1873 e, depois, continuou por mais alguns anos conduzindo engenheiros — como Bigg-Wither, os irmãos Keller e Thomas Elliot — em expedições que chegaram até as antigas Sete Quedas, mais tarde submersas pela construção da Usina de Itaipu.
Vale lembrar: a ocupação do território paranaense era, historicamente, muito recente. Até a década de 1950, cerca de 60% do estado ainda era coberto por florestas.
O papel na formação da cidade
Aqui está a parte mais curiosa — e talvez a mais reveladora — dessa história: Telêmaco Borba não tem, comprovadamente, nenhuma ligação direta com o território que hoje leva seu nome.
Segundo pesquisa relatada por uma professora de história local, ao tentar entender por que a cidade recebeu essa homenagem, ela e seus alunos não encontraram vínculo entre a vida do coronel — que atuou principalmente em Tibagi — e a região que, décadas depois, se emancipou como novo município.
A explicação estaria na política. Dois descendentes de Telêmaco Borba, Guará Borba Carmelo e Túlio Vargas — ambos deputados estaduais — teriam usado sua influência para garantir que o nome do antepassado fosse dado à nova cidade emancipada de Tibagi, mesmo havendo outras sugestões em disputa. O relato indica que, durante um breve período em que Guará esteve no poder, ele teria imposto o nome, impedindo inclusive um plebiscito que a Câmara Municipal chegou a cogitar anos depois para uma eventual mudança.
Ou seja: o nome da cidade nasceu muito mais de disputa e capital político de uma família do que de qualquer vínculo pessoal do coronel com aquele pedaço de terra.
(Vale registrar: essa é a versão apresentada na pesquisa relatada na transcrição-fonte. Não há, até onde a informação disponível permite afirmar, documentação adicional citada que contradiga essa conclusão.)
Fatos históricos valiosos
A Lei de Terras de 1850 — Foi a primeira legislação brasileira a, teoricamente, garantir a terras indígenas em usufruto às comunidades que já as ocupavam. Na prática, porém, essa mesma legislação conviveu com a política de “aldeamentos”, que concentrava várias aldeias espalhadas dentro de uma macrorregião administrada pelo governo — política da qual Telêmaco foi um dos agentes.
Um projeto que fracassou — A meta oficial dos aldeamentos era “civilizar” e integrar os povos indígenas à sociedade nacional. O relato é claro: essa proposta não vingou. Nem os freis capuchinos nem os agentes do Estado conseguiram esse objetivo, e o governo eventualmente abandonou o modelo.
Uma era de violência documentada — A fonte é enfática em não fazer acusações sem prova: não é possível afirmar que Telêmaco esteve envolvido em mortes de indígenas. Mas o contexto histórico em que ele atuava era de conflitos frequentes entre agentes do Estado, colonizadores e comunidades indígenas — a ponto de, até 1940, vigorar em Santa Catarina a chamada “Lei dos Bugreiros”, que pagava recompensas em dinheiro por pares de orelhas de indígenas mortos.
A Revolução Federalista e o exílio — Telêmaco se envolveu no movimento federalista, insurreição iniciada no Rio Grande do Sul contra o governo do marechal Floriano Peixoto. Foi apelidado de “Maragato” por sua participação. Derrotado, precisou fugir para a Argentina, onde viveu exilado por quase dois anos, até ser anistiado pelo presidente Prudente de Morais e retornar a Tibagi — mais fortalecido politicamente do que antes de partir.
Coronel da Guarda Nacional — Em 1899, teve sua patente de coronel ratificada. É importante entender o que esse título significava: não vinha do Exército, mas da Guarda Nacional, formada por membros da elite local que já mantinham suas próprias milícias particulares. Em troca de apoio ao governo, essas figuras recebiam o título e o poder de “fazer a lei valer” em seus territórios — o retrato clássico do coronelismo brasileiro.
Vida política em Tibagi — Chegou a Tibagi com a família em 1878. A partir de 1880, foi eleito prefeito por praticamente todas as gestões até 1918 (cinco ou seis mandatos, segundo o relato), acumulando também os cargos de deputado provincial, no Império, e deputado estadual, na República.
Contradição sobre sua imagem — A fonte aponta explicitamente duas narrativas conflitantes sobre Telêmaco: de um lado, o “protetor de índios” que aprendeu a língua indígena e registrou sua cultura; de outro, uma versão que o descreve como perseguidor de povos indígenas. O material consultado não permite fechar essa questão — e o relato prefere sinalizar a controvérsia a escolher um lado.
Curiosidades
- Ele talvez tenha cunhado o termo “Kaingang”. O próprio Telêmaco afirmava ter sido quem consolidou esse nome, reconhecendo, ao mesmo tempo, que havia diversos subgrupos — Coroados, Papagaios, Ibirajaras, entre outros — que ele reuniu sob essa denominação por compartilharem língua, instrumentos e práticas semelhantes.
- Escreveu a primeira gramática kaingang do Brasil. Em um de seus primeiros trabalhos, publicou uma pequena gramática dos “Caingangs ou Coroados”, além de material sobre os povos que classificava como de origem tupi.
- Seus artigos circularam fora do Brasil. Em 1908, lançou o livro Atualidade Indígena, reunindo textos sobre língua, ritos funerários e utensílios dos povos indígenas — parte desse material foi publicada em periódicos internacionais, não apenas nacionais.
- Ficou surdo nos últimos anos, mas ninguém o corrigia. Relatos dos Anais da Assembleia Legislativa contam que, já idoso, ele às vezes respondia perguntas diferentes das que lhe eram feitas — e mesmo assim, por respeito à sua trajetória, ninguém o corrigia publicamente.
- A cidade tem um hino que quase se perdeu na história. O hino oficial de Telêmaco Borba nasceu de um poema escrito pela professora Eloá, musicado por seu tio, o maestro Bento Mussurunga — que seria, segundo o relato, a última composição dele antes de falecer. A descoberta desse material por uma pesquisa escolar levou à oficialização do hino pela prefeitura.
Legado
O verdadeiro legado de Telêmaco Borba não está necessariamente na cidade que carrega seu nome, mas no registro que ele deixou sobre os povos Kaingang — hoje uma das maiores etnias do Brasil, com forte presença no ensino superior e na produção de conhecimento sobre si mesma. Grande parte da documentação histórica sobre esses povos, incluindo aspectos linguísticos e culturais, remonta ao trabalho de pesquisadores autodidatas como ele, que registraram rituais e vocabulário num momento em que acreditavam — equivocadamente, como a história mostrou — que essas culturas estavam prestes a desaparecer.
É um legado ambíguo, como a própria imagem do personagem: ao mesmo tempo que documentou e preservou conhecimento valioso, ele foi também agente de um projeto de Estado que buscava apagar a diferença cultural indígena em nome da integração forçada à sociedade nacional.
Final
Conhecer essa história é entender que os nomes que carregamos nas placas de rua, nos hinos municipais e nos mapas nem sempre contam a história completa — às vezes escondem disputas de poder, memórias contestadas e figuras muito mais complexas do que qualquer estátua sugere. Antes de ser apenas “o nome da cidade”, Telêmaco Borba foi um homem do seu tempo, com todas as contradições que isso implica. E talvez seja justamente por isso que sua história mereça ser contada — não para glorificar ou condenar, mas para entender.


