Tudo começou num cemitério. Um menino de seis ou sete anos caminhava ao lado do avô entre túmulos abandonados, lendo nomes e datas, imaginando as vidas inteiras escondidas ali. Décadas depois, aquele menino — Ricardo Skalinski — transformou essa curiosidade infantil em um livro que resgatou a história de centenas de famílias polonesas que ajudaram a povoar a região dos Campos Gerais, incluindo o que hoje é Telêmaco Borba. Nenhuma formação em história. Só a convicção de que aquelas histórias não podiam ser esquecidas.
A trajetória de Ricardo Skalinski
Ricardo não é historiador de formação — ele mesmo se define como “um contador de histórias”. Sua motivação nasceu de um hábito de infância: nos dias próximos a Finados, ele acompanhava o avô, a avó e a bisavó em visitas ao cemitério, onde os mais velhos contavam quem estava enterrado em cada túmulo. Esse costume, hoje raro, era quase uma celebração familiar — mas o que ficou gravado na memória de Ricardo foi a tristeza dos túmulos abandonados, sem visitas, com histórias esquecidas.
Ao voltar o olhar para a própria família, ele percebeu que sabia muito pouco. Os relatos se misturavam entre gerações — ele é, por conta própria estimativa, da quarta geração de descendentes dos primeiros Skalinski a chegar ao Brasil. Começou então uma pesquisa genealógica financiada inteiramente com recursos próprios, percorrendo arquivos públicos, bibliotecas, museus e casas de memória por diferentes cidades do Paraná — e, aos poucos, descobriu que não estava apenas reconstruindo a história de sua família, mas a de centenas de outras que chegaram nas mesmas condições. O resultado foi o livro “Raízes”, concluído em 2016, com exemplares doados a bibliotecas públicas de várias cidades paranaenses.
O contexto da imigração polonesa
Para entender por que tantos poloneses vieram parar no Paraná, é preciso voltar à própria história da Polônia. No fim do século 18, o país — antes um reino próspero — foi invadido e repartido entre três grandes potências: o Império Russo, a Prússia (atual Alemanha) e o Império Austro-Húngaro. A partir daí, a Polônia deixou de existir como estado independente, e seu povo passou a viver sob domínio estrangeiro, muitas vezes tratado como população de segunda categoria dentro dos próprios territórios de origem.
Essa condição, somada à busca por uma vida melhor, tornou os poloneses um público-alvo natural para as campanhas de imigração promovidas pelo Brasil a partir do fim do século 19. O país vivia dois problemas simultâneos: a abolição da escravidão em 1888 (por meio da Lei Áurea) havia criado uma demanda repentina por mão de obra assalariada, e o Paraná, à época, tinha apenas cerca de 60 mil habitantes em todo o estado — um território imenso e praticamente vazio.
Companhias de imigração espalhavam propaganda por toda a Europa — inclusive, segundo o relato, lenços bordados com a imagem de navios, distribuídos como forma de atrair interesse. Correram lendas que hoje soam quase fantásticas: de que o Brasil era uma terra onde havia tanto ouro e diamante que as pessoas costuravam sacos só para juntar riqueza; de que não era preciso usar sapatos; de que uma única árvore bastava para construir uma casa inteira. Havia até uma lenda de fundo religioso: a de que o Brasil estivera escondido numa neblina até que Nossa Senhora o revelasse ao Papa.
Esse movimento, conhecido como “febre do Brasil”, ganhou força a partir de 1891/1892 — justamente quando os ancestrais de Ricardo deixaram a Polônia. A partir de certo ponto, o próprio governo brasileiro passou a custear a viagem dos imigrantes, o que ampliou ainda mais o fluxo.
A chegada e a travessia
Como a Polônia não existia como nação independente, os imigrantes precisavam embarcar a partir de portos de outros países — no caso da família de Ricardo, o embarque foi em Bremen, na Alemanha. A viagem em navios a vapor durava entre 25 e mais de 30 dias, variando conforme escalas para reabastecimento de carvão. As condições sanitárias eram precárias: a água armazenada em barris ou tonéis metálicos favorecia doenças como febre tifoide e escarlatina, e os imigrantes viajavam nos porões dos navios, não em cabines de primeira classe.
Ao chegar ao Brasil, o destino era a Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, onde os recém-chegados ficavam em quarentena por cerca de 40 dias — período em que, segundo os registros consultados por Ricardo, eram bem alimentados e recebiam materiais de higiene. Depois da quarentena, os departamentos de colonização os distribuíam para diferentes estados: Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e até o Espírito Santo, onde existiu uma colônia polonesa chamada Águia Branca.
Os ancestrais de Ricardo chegaram ao Brasil em abril de 1891, a bordo do navio Wesser. Décadas depois, ele conseguiu localizar o diário de bordo original desse navio em arquivos da Marinha do Brasil — documento manuscrito que confirmava nomes, idades, filiação e grau de parentesco de sua família, incluindo os nomes dos filhos que viajavam com o casal. Ele cruzou essas informações com datas encontradas em túmulos no cemitério da colônia Gertrudes, em Ponta Grossa, fechando a cronologia da família.
O papel na formação da região
A presença polonesa nos Campos Gerais e no entorno de Telêmaco Borba não se limita a uma curiosidade genealógica: ela ajudou a moldar a economia, a arquitetura e a cultura material da região.
Tecnologia e ofício. Muitos imigrantes vinham de regiões onde técnicas de carpintaria, marcenaria e ferraria já eram bem desenvolvidas — conhecimentos escassos no Paraná pouco povoado da época. Trouxeram técnicas de construção com madeira encaixada, sem uso de pregos (ainda visíveis hoje em casas preservadas no Bosque do Papa, em Curitiba) e telhados de inclinação acentuada, adaptados ao acúmulo de neve europeu.
Trabalho nas agrovilas da Klabin. Parte significativa da história familiar de Ricardo está ligada às agrovilas da companhia — núcleos populacionais como Lagoa, Quilômetro 28 e Miranda, que abrigavam trabalhadores da indústria papeleira e madeireira na região de Harmonia e Monte Alegre (área que hoje corresponde a Telêmaco Borba). Essas agrovilas tinham infraestrutura própria: escola, igreja, armazém de subsistência, olaria e até padaria — onde o próprio pai de Ricardo trabalhou. O avô dele, Estanislau Skalinski, foi motorista de caminhão na região.
Concentração demográfica expressiva. Segundo o relato, a região de São José dos Pinhais abriga hoje a segunda maior concentração de poloneses fora da Polônia, atrás apenas dos Estados Unidos — um dado que ilustra a escala dessa imigração no Paraná como um todo.
Fatos históricos valiosos
A questão da nacionalidade nos documentos — Como a Polônia não existia como país entre o fim do século 18 e o fim da Primeira Guerra Mundial, os imigrantes eram registrados nos documentos de entrada conforme a potência que ocupava sua região de origem: quem vinha de área sob domínio russo era registrado como “russo”; quem vinha de área austríaca, como “austríaco”; e assim por diante — mesmo sendo, na prática, poloneses.
A transliteração dos sobrenomes — Como o polonês usa caracteres latinos, mas com dígrafos e grafias específicas, muitos sobrenomes foram registrados no Brasil da forma como soavam para o escrivão, e não como eram grafados originalmente. Isso gerou dezenas de variações do mesmo sobrenome ao longo de gerações e países — o próprio Ricardo encontrou seu sobrenome grafado de formas diferentes na Ilha das Flores, no Paraná e nos Estados Unidos.
“Polaco” ou “polonês”? — O relato aponta uma curiosidade linguística pouco discutida: dicionários publicados em Portugal usam “polaco” como gentílico padrão, enquanto no Brasil consolidou-se o uso de “polonês” (de origem francesa). Na infância de Ricardo, o termo “polaco” não tinha nenhuma conotação pejorativa — era como a comunidade se autodenominava — embora, segundo ele, o termo tenha adquirido um uso depreciativo em centros urbanos maiores em determinado momento histórico.
Origem dos sobrenomes — Muitos sobrenomes poloneses remetem a profissões (como “Kowalski”, ligado a ferreiro) ou a localidades de origem — o caso do próprio “Skalinski”, derivado da palavra polonesa para “rocha”, em referência a um castelo de pedra próximo à aldeia de onde a família viria.
Um método de pesquisa quase artesanal — Sem grande acesso à internet na época em que iniciou a pesquisa, Ricardo passou anos lendo atas manuscritas de reuniões do governo do Paraná do século 19 em busca de menções à instalação de colônias polonesas, além de vasculhar arquivos digitalizados de navios de imigrantes letra por letra, aprendendo a reconhecer a caligrafia manuscrita da época para poder transcrever nomes.
Curiosidades
- Uma pessoa mudou de sobrenome para fugir do recrutamento militar prussiano. Edmundo Wosstrowski, apontado como fundador da primeira colônia polonesa no Paraná, teria alterado seu próprio nome justamente para escapar do serviço militar obrigatório imposto pela Prússia.
- O “amarelo polaco”. As casas de imigrantes poloneses costumavam ser pintadas em cores vivas — amarelo, vermelho, laranja — uma escolha associada tanto à tradição decorativa quanto ao desejo de trazer alegria visual em meio aos dias frios e nevados da Europa natal.
- A tradição dos ovos pintados. Antes da Páscoa moderna do chocolate, famílias polonesas decoravam ovos cozidos usando técnicas com cera de abelha e corantes naturais — como cascas de cebola roxa, que tingiam os ovos de roxo — um costume que a bisavó de Ricardo ainda praticava.
- A imagem da “Madona Negra”. Muitos imigrantes traziam consigo réplicas do ícone de Nossa Senhora de Częstochowa, padroeira da Polônia, reconhecível por uma cicatriz no rosto — segundo a lenda, resultado de um golpe desferido por soldados durante um conflito histórico. A devoção à imagem segue viva entre descendentes, mesmo em regiões distantes, como relatou Ricardo ao encontrá-la, por acaso, numa igreja em Prudentópolis.
- Casamentos de três dias. As celebrações de casamento tradicionais polonesas podiam durar até três dias, com uma dinâmica curiosa: convidados pagavam para dançar com a noiva, depositando dinheiro num chapéu destinado ao padrinho, que em troca oferecia charutos — uma tradição bem diferente da conhecida “corte de gravata” adotada depois no Brasil.
Legado
O legado de Ricardo Skalinski está em ter transformado uma busca pessoal em patrimônio coletivo. Ao pesquisar sua própria família, ele acabou documentando centenas de sobrenomes, trajetórias e detalhes da imigração polonesa nos Campos Gerais — informações que, sem esse trabalho voluntário e autofinanciado, poderiam ter se perdido com o falecimento das últimas gerações que viveram essas histórias diretamente. Seu livro está hoje disponível em bibliotecas públicas de diversas cidades paranaenses, servindo como ferramenta de pesquisa para outras famílias descendentes de poloneses que queiram reconstruir sua própria genealogia.
Mais do que isso, Ricardo também prestou uma homenagem a figuras locais que, sem holofotes, mantiveram viva a cultura polonesa na região — como o pesquisador Ulisses Iarochinski, autor de obras sobre a comunidade polonesa no Paraná, e outros moradores mais velhos que, com pouca ou nenhuma formação acadêmica, preservaram tradições orais essenciais para reconstituir essa história.
Final
A formação de Telêmaco Borba e da região dos Campos Gerais não pode ser contada sem os nomes poloneses que chegaram em navios lotados, atravessando o Atlântico atrás de uma promessa de terra fértil — muitas vezes maior do que a realidade que encontraram. Escondidas em agrovilas, cemitérios e sobrenomes reescritos foneticamente, essas histórias quase se perderam. Só não se perderam porque alguém, como Ricardo Skalinski, decidiu que valia a pena escutar os mais velhos antes que fosse tarde demais.


