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Imigração espanhola: raízes de Telêmaco Borba

Em 28 de maio de 1960, uma jovem espanhola de 18 anos desembarcava no porto de Santos depois de 14 dias em alto-mar, carregando a promessa de voltar para casa “em um ano”. A curiosidade virou vida. Mais de sessenta anos depois, Dona Teresa Dieguez — hoje com 80 anos — segue à frente da lavanderia que ajudou a construir com as próprias mãos em Telêmaco Borba, sem nunca ter aprendido a ler ou escrever com fluência em português. E, ainda assim, se tornou uma das pessoas mais respeitadas da comunidade que ajudou a erguer.

A trajetória de Dona Teresa

Teresa nasceu na Espanha, na Galícia, no dia de Reis de 1942 — filha mais velha de quatro irmãos. Seu pai havia passado cinco anos na guerra (o relato não especifica qual conflito, mas o contexto histórico aponta para a Guerra Civil Espanhola), viu muitos amigos e soldados morrerem, sobreviveu e chegou a viver até os 94 anos.

Ela cresceu numa pequena aldeia de 25 a 30 casas próximas umas das outras, sem cercas nem portões, cercada de lavoura. A vida ali era comunitária: na época da colheita do trigo e da vindima (colheita da uva), as famílias se reuniam para trabalhar juntas, terminando o dia com serenatas, cantos nas janelas das moças e a produção artesanal do próprio vinho da família.

Em 1960, com 18 anos, ela deixou a Espanha a convite de tios — irmãos de sua avó, já idosos e sem filhos — que moravam em Santos e pediram à mãe de Teresa que a deixasse ir morar com eles. O acordo, segundo ela mesma relata, era simples: “vou conhecer o Brasil, mas depois de um ano eu volto.” O ano nunca chegou a se completar como planejado — Teresa só retornaria à Espanha pela primeira vez 15 anos depois, em 1975.

A chegada à região

A viagem começou com o namorado ainda na Espanha — o processo de emigração exigia documentação organizada por um convênio entre Brasil e Espanha, que dividia os custos da passagem entre o emigrante, o consulado espanhol e o governo brasileiro, além de exigir um responsável familiar já estabelecido no destino. Foi o irmão do namorado, morador de Santos, quem providenciou os papéis — e mais tarde se tornaria padrinho de casamento do casal.

Teresa e o futuro marido se casaram em junho de 1961, ainda em Santos. Ele viajou da Espanha e chegou ao Brasil em janeiro de 1962. Pouco depois, o casal foi convidado pelo cunhado — que já morava na então Cidade Nova (área que hoje integra Telêmaco Borba) e trabalhava como encarregado na serraria da companhia local, fazendo bicos como barbeiro aos fins de semana no bairro Harmonia — a se mudar para lá e recomeçar a vida.

A decisão fazia sentido: o casal esperava o primeiro filho, e o cunhado apontou que Cidade Nova, como o próprio nome sugere, era um lugar “fácil de começar”, com espaço para empreender. O marido de Teresa sabia trabalhar como alfaiate; ela já havia aprendido a costurar na Espanha.

A chegada em si ficou marcada na memória de Teresa por um detalhe simples: ao se aproximar da ponte estreita de madeira que dava acesso à região, ela olhou para baixo, viu a estrutura frágil e pensou que o ônibus fosse cair.

O papel na formação da cidade

Ao chegarem, Teresa e o marido montaram, ao lado da cunhada, uma alfaiataria, uma tinturaria e uma lavanderia batizada de Barcelona, perto da Praça da Bíblia. Foi um dos primeiros negócios do tipo na região.

Enquanto isso, o casal também trabalhou na fábrica de papel da Klabin — ele no período noturno, ela no setor de “escolha”, uma função que hoje chamaríamos de controle de qualidade: cada folha de papel produzida passava pela inspeção manual de Teresa e das colegas, que separavam folhas com defeitos (dobras, tamanhos fora do padrão) antes da embalagem final.

Em determinado momento — o relato situa esse período em torno de 1970/1971 — o casal construiu uma casa própria na Rua Manoel Ribas e ali abriu a Lavanderia Madrid, a primeira lavanderia a seco de Cidade Nova. O negócio segue até hoje no mesmo endereço, funcionando havia mais de cinco décadas.

Além do comércio, Teresa se tornou uma das fundadoras do Movimento Familiar Cristão (MFC) em Telêmaco Borba. Em 1980, um grupo da cidade participou de um encontro em Ponta Grossa e decidiu trazer o movimento para casa; em janeiro de 1981, coordenadores vieram de Ponta Grossa para explicar como o MFC funcionava, e em julho daquele ano o grupo foi oficialmente iniciado no Colégio das Irmãs. Teresa e o marido integraram o primeiro grupo, batizado “Esperança em Cristo”. O movimento chegou a reunir mais de 500 pessoas na cidade, distribuídas em cerca de 30 a 35 grupos, promovendo desde cursos de batismo e de noivos até distribuição de cestas básicas e apoio a famílias em situação de vulnerabilidade.

Mesmo sem nunca ter aprendido a ler e escrever com desenvoltura em português, Teresa atuou por 27 anos recebendo famílias e crianças nas cerimônias de batismo da paróquia — um trabalho voluntário que ela credita a um convite simples de uma irmã da igreja, que lhe disse que bastava saber dar “boa noite” e “tchau” com carinho.

Fatos históricos valiosos

O convênio de imigração Brasil-Espanha — Nas décadas de 1950 e 60, viajar da Espanha para o Brasil não era simplesmente “comprar a passagem e embarcar”. Existia um acordo entre os dois países que rateava o custo da viagem entre o emigrante, o consulado espanhol e o governo brasileiro — mas exigia que houvesse um responsável, geralmente um parente já radicado no Brasil, para garantir hospedagem, alimentação e emprego ao recém-chegado.

O racionamento de energia entre bairros — Segundo Teresa, na época em que a lavanderia começou a funcionar, o fornecimento de energia na região era tão limitado que a distribuição precisava ser alternada entre os bairros Harmonia e Cidade Nova: enquanto um recebia energia, o outro ficava sem — e no dia seguinte, o esquema se invertia. Isso afetava diretamente negócios que dependiam de eletricidade constante, como a lavanderia.

Voluntariado durante os grandes incêndios florestais — O relato menciona um período de incêndios florestais intensos na região, com múltiplos focos simultâneos, em que moradores — incluindo o marido de Teresa — foram convocados para ajudar a combater o fogo como voluntários, e famílias inteiras do bairro Bom Jesus chegaram a se preparar para uma possível evacuação, com documentos e roupas separados por precaução.

A fábrica da Klabin como eixo econômico — O trabalho de Teresa no setor de “escolha” de papel na fábrica ilustra como a indústria papeleira moldou a vida da região: famílias inteiras, migrantes e locais, dependiam direta ou indiretamente da fábrica para sustento, e o ritmo de turnos e produção organizava boa parte da rotina da cidade nas décadas de 1960 e 70.

Curiosidades

  • Ela ganhou uma quantia em cruzeiros por engano. Ao tentar mandar um telegrama para avisar seus tios sobre o horário de chegada do navio em Santos, Teresa não entendeu bem as instruções do funcionário dos Correios — e acabou recebendo de volta 75 cruzeiros que não esperava, pensando, aliviada, que talvez pudesse voltar para a Espanha com aquele dinheiro.
  • Ela não sabia ler nem escrever quando começou a coordenar cerimônias na igreja. Ao ser convidada para atuar na pastoral do batismo, Teresa relata ter respondido que não sabia “dar palestra” nem ler — e foi convencida por uma irmã da paróquia de que bastava saber acolher com carinho quem chegava.
  • Um tio “analfabeto” que enriqueceu no comércio em Santos. Teresa lembra de um tio que só assinava documentos com o dedo, por não saber escrever, mas que construiu um pequeno patrimônio em imóveis e um restaurante em Santos — “não tinha faculdade, mas tinha tino comercial”, segundo ela.
  • A filha que pediu “um pode” em vez de “um frango”. Em uma cena que a família ainda relembra com carinho, uma das filhas de Teresa, então criança e já mais habituada ao português, foi ao açougue de parentes espanhóis pedir um frango e usou a palavra em espanhol, “pollo” — confundindo os balconistas.
  • A comida como elo com a terra natal. Até hoje, Teresa prepara receitas espanholas tradicionais, como a tortilha de batatas e um cozido feito com grão-de-bico no lugar do feijão — uma versão espanhola da feijoada, segundo ela mesma descreve.

Legado

O legado de Dona Teresa não está em um monumento ou numa data histórica oficial, mas em algo mais silencioso e igualmente duradouro: o tecido social que ela ajudou a costurar em Telêmaco Borba. Como uma das primeiras comerciantes da então Cidade Nova, ela contribuiu para o que ela mesma descreve como “fazer a roda da economia girar” — um pequeno negócio que sustentou uma família e ainda hoje segue em funcionamento. Como fundadora do Movimento Familiar Cristão na cidade, ajudou a construir uma rede de apoio comunitário que, décadas depois, ainda distribui cestas básicas e acompanha famílias vulneráveis. E como imigrante que nunca teve acesso à educação formal em português, ela mostra que contribuição comunitária não depende de diploma, mas de disposição para servir.

Final

A história de Telêmaco Borba não foi escrita apenas por quem deu nome às ruas ou assinou decretos de emancipação. Foi também escrita por pessoas como Dona Teresa — que atravessaram um oceano com uma mala pequena e uma promessa de voltar em um ano, e acabaram construindo, tijolo por tijolo, gesto por gesto, o cotidiano de uma cidade inteira. Conhecer essas histórias é lembrar que toda cidade é, no fim, feita de gente comum fazendo escolhas extraordinárias.

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